Vinte minutos depois
No corredor dos brinquedos, ele pega na caixa com as duas mãos. "Não pode ser hoje." Não há grito. Não há corpo a cair no chão. Ele só olha para a caixa, depois para a mãe, e pousa-a devagar no sítio certo, quase com cuidado a mais. "Está bem", diz. Continuam as compras. Escolhe os gelados para o fim de semana, ajuda a pôr as maçãs no saco, pergunta se ainda vão à praia à tarde. Nada indica que aconteceu alguma coisa. Vinte minutos depois, no carro, já com os cintos apertados, ele começa a chorar. Não é birra, não pede nada, não grita. Só chora, baixinho, olhando pela janela. "O que se passa João?" "Era só... queria mesmo aquele." A mãe ficou ali, parada, com a chave já na ignição. Não houve birra no corredor. Chegou vinte minutos depois, sozinha, sem plateia, sem pedido, só ele e a janela do carro. A mãe desligou o rádio. E ficaram os dois em silêncio até chegar a casa.








