Um dia, vais ter saudades de coisas que hoje fazem parte dos teus dias

 

Há momentos da vida dos nossos filhos que parecem tão banais que quase não lhes damos importância.

A forma como nos chamam vezes sem conta para mostrar uma coisa que acabaram de descobrir.

As pequenas mãos que procuram as nossas quando atravessamos a rua.

As histórias intermináveis à hora de jantar, mesmo quando estamos cansadas e só queremos terminar as tarefas do dia.

A necessidade de nos terem por perto para adormecer.

As perguntas constantes, os abraços inesperados, as gargalhadas por coisas que só eles acham graça.

E também os momentos mais difíceis. As birras porque alguma coisa não correu como esperavam, as lágrimas por motivos que nos parecem pequenos (mas para eles são gigantes), a insistência em fazer tudo à sua maneira, as respostas que nos tiram a paciência.

 

Hoje, algumas destas situações podem parecer-nos apenas mais uma parte da rotina. Outras podem deixar-nos completamente esgotadas.

Mas há uma coisa em que nem sempre pensamos: um dia, estas fases vão fazer parte das nossas recordações.

O bebé que precisava de nós para quase tudo, vai começar a querer fazer as coisas sozinho. A criança que nos conta todos os pormenores do seu dia vai passar a escolher o que quer partilhar. Aquele filho que procura a nossa mão vai, aos poucos, caminhar com mais independência.

E isso é bom. É sinal de que está a crescer, a ganhar autonomia e a preparar-se para o mundo.

Mas também significa que algumas coisas vão mudar. E que há momentos que não voltam.

Daqui a alguns anos, talvez sintas saudades de ouvir aquela voz a chamar por ti a cada cinco minutos. Talvez recordes com um sorriso as pequenas discussões que hoje te parecem intermináveis. Talvez tenhas vontade de voltar a abraçar aquele filho que, durante tanto tempo, procurou o teu colo para se sentir seguro.

Não se trata de viver com a preocupação de aproveitar cada instante, como se não pudéssemos deixar escapar nenhum momento. Trata-se de reconhecer o valor destes pequenos momentos e de lhes dar espaço no meio da correria dos dias. Porque também haverá dias em que estás cansada, sem paciência ou com a cabeça cheia de preocupações. E isso faz parte da maternidade.

Mas talvez possamos fazer uma pequena mudança na forma como olhamos para o dia a dia.

Em vez de estarmos sempre focadas no que ainda falta ensinar, corrigir ou melhorar, podemos reservar algum espaço para reparar naquilo que já está a acontecer.

Ouvir mais uma história, mesmo quando já estamos a pensar no jantar. Parar um instante para corresponder a um abraço. Rir com eles de uma pequena brincadeira. Estar presentes numa conversa que, à primeira vista, até poderia parecer insignificante.

 

Educar não é apenas preparar os filhos para o futuro. É também construir, hoje, a relação que queremos continuar a ter com eles amanhã.

E essa relação não se constrói apenas nas grandes conversas, nas decisões importantes ou nos momentos em que conseguimos ensinar uma lição.

Constrói-se em muitos pequenos momentos. Na forma como os escutamos, como os acolhemos, como estabelecemos limites, como brincamos e como voltamos a aproximar-nos depois de um conflito.

Queremos estar disponíveis, ter paciência, brincar, ouvir e desfrutar da companhia dos nossos filhos. Mas sabemos que nem sempre conseguimos fazê-lo. Há dias em que o cansaço fala mais alto, em que a paciência se esgota e em que a cabeça está ocupada com mil outras coisas. Ainda assim, podemos procurar não deixar que a pressa de educar nos faça esquecer a importância de estar com eles.

Os nossos filhos estão a crescer. E, enquanto os ajudamos a preparar-se para a vida, também estamos a viver uma fase da nossa vida que merece ser saboreada.

Talvez hoje seja um bom dia para parar um pouco, olhar para o teu filho e reparar em quem ele é nesta fase.

Porque amanhã será diferente. E há coisas que só poderás recordar.

Comentários

Mensagens populares