A orquestra antes do concerto
Antes de qualquer concerto, há um momento em que a sala ainda não tem público, só músicos, dispersos, cada um a preparar-se à sua maneira.
O oboísta chegou primeiro. Precisa de humedecer a palheta, testá-la várias vezes, ajustar milímetros até soar bem. Pode levar vinte minutos só nisto, antes de tocar uma única nota da peça a sério.
O baterista chega quase em cima da hora, senta-se, ajusta os pratos, dá duas batidas, e está pronto.
O violinista afina uma corda, para, ouve, afina de novo. Repete isto tantas vezes que já nem ele sabe contar.
Ninguém acha estranho. Ninguém diz ao oboísta "despacha-te" ou ao baterista "devias preparar-te melhor". Cada instrumento tem o seu próprio tempo até chegar ao tom certo, e o maestro sabe disso. Por isso nunca marca a mesma hora de chegada para todos.
Em casa, às 7h20, há também uma orquestra a afinar antes do dia começar.
O mais novo salta da cama, veste-se em três minutos, e já está a perguntar o que há para o lanche.
A mais velha continua debaixo do lençol, de olhos fechados. Se lhe perguntarem alguma coisa antes dos primeiros dez minutos, a resposta vem sempre mal-humorada... porque ainda não afinou.
E há o do meio, que só começa a falar depois de estar vestido. Como se as palavras só viessem depois da roupa.
Ninguém ensaiou nada disto. Foi sempre assim.
Talvez a manhã perfeita não seja aquela em que todos estão prontos ao mesmo tempo. Talvez seja só aquela em que cada um tem o tempo que precisa para afinar, antes de o dia começar a tocar a sério.
Esta semana, com as aulas a regressar e a campainha da escola a não esperar que ninguém acabe de afinar. Talvez valha a pena lembrar disto.
Neste regresso às aulas, quem lá em casa fica afinado primeiro? E quem só afina mesmo em cima da hora?



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