Superproteger: quando proteger impede de crescer
Já reparaste
que há cada vez mais mães que estão embrenhadas na vida dos filhos que, sem
perceber, estão a retirar-lhes algo essencial: a capacidade de crescer. Estas
mães controlam cada movimento, cada passo, cada respiração… para que nada corra
mal.
A isto chamamos
sobreproteção, ou, como eu gosto de dizer, superproteger.
Nasce do
amor. Mas o impacto é real.
A
sobreprotecção não surge da indiferença. Surge do medo. Do medo que o filho
sofra, que falhe, que se magoe, que enfrente um mundo que nos parece cada vez
mais difícil e incerto.
E por isso
intervimos. Resolvemos. Antecipamos. Protegemos.
O filho
esqueceu-se dos trabalhos de casa? Vamos ver se alguém ajuda, para que não leve
falta. O filho podia ajudar em casa, mas está cansado, então fazemos nós. O
filho já tem 13 anos mas ainda o levamos de carro a todo o lado, porque
atravessar a rua sozinho ou andar de transportes públicos parece demasiado
arriscado.
Cada uma destas
decisões, isolada, parece razoável. Até compreensível.
Mas repetidas
todos os dias, enviam uma mensagem muito clara ao nosso filho: “Tu não és
capaz. Eu faço por ti.”
O que se
observa nas crianças hoje
Trabalho com
famílias há vários anos. E o que observo, cada vez mais, são crianças com
grande dificuldade em tolerar a frustração, que desmoronam perante o primeiro
obstáculo. Crianças que não sabem resolver um problema simples sem recorrer ao
adulto. Crianças ansiosas, inseguras, com pouca confiança nas suas próprias
capacidades.
E não é
coincidência.
Ao proteger os
filhos do desconforto, bloqueamos as oportunidades de aprendizagem emocional
que surgem precisamente da experiência. Quando nunca deixamos o filho falhar,
ele nunca aprende a recuperar. Quando resolvemos tudo por ele, ele nunca
descobre que é capaz. Não é à toa que se fala cada vez mais de pais
helicóptero.
E a ansiedade,
esse mal do nosso tempo, nasce e cresce exatamente aqui. A sobreprotecção faz
com que a criança acredite que o mundo é perigoso e que não tem recursos
próprios para o enfrentar. O resultado é dependência, ansiedade crescente e uma
confiança nas suas próprias capacidades cada vez mais frágil.
O que
acontece à família
Há outro
impacto que raramente se fala o que a sobreprotecção faz à dinâmica familiar.
Os pais ficam
exaustos. Porque fazem tudo. Levam, trazem, resolvem, antecipam, gerem. Sem
parar. Sem espaço para si próprios.
E os filhos,
paradoxalmente, ficam mais exigentes, não menos, porque aprenderam que os pais
estão sempre disponíveis para resolver, que não precisam de se esforçar, porque
alguém o fará por eles, que as consequências dos seus atos têm sempre uma rede
de segurança chamada mãe (ou pai).
A relação
desequilibra-se. Os pais gerem. Os filhos exigem. E o cansaço acumula-se dos
dois lados, embora por razões diferentes.
É o paradoxo de
superproteger: quanto mais fazemos, mais eles precisam.
Que adultos
estamos a formar?
Esta é a
pergunta que me inquieta. E que devia inquietar-nos a todas.
As crianças de
hoje serão os adultos de amanhã. E os padrões que estamos a instalar agora, a
incapacidade de lidar com o fracasso, a dependência do outro para resolver
problemas, a falta de autonomia e de responsabilidade, vão seguir com eles.
O adolescente
que nunca apanhou um autocarro sozinho vai ser o adulto que não sabe navegar a
incerteza. O filho a quem nunca foi permitido levar uma falta vai ser o
profissional que não sabe assumir responsabilidade pelos seus erros. A criança
a quem nunca foi dado espaço para se entediar, para falhar, para resolver, vai
ser o adulto que depende constantemente da validação e da ajuda dos outros.
A investigação
é clara: estilos parentais caracterizados por controlo excessivo estão
associados a maior presença de ansiedade e depressão em adolescentes e jovens
adultos.
E a nível
social, o impacto é igualmente preocupante. Uma geração menos resiliente, menos
criativa, menos capaz de gerir conflitos e adversidade é uma geração menos
preparada para contribuir, para liderar e para construir.
Mas há
esperança!
Sei, por
experiência própria e pelo trabalho que faço com famílias, que superproteger
nasce sempre do amor. Mas o amor que prepara é mais poderoso do que o amor que
protege.
Consciência de
que deixar o filho falhar é um ato de amor. Que deixá-lo levar falta porque se
esqueceu dos trabalhos de casa é educação. Que deixá-lo apanhar o autocarro
sozinho aos 13 anos é prepará-lo para a vida, não abandoná-lo.
A pergunta não
é “estou a fazer bem ou mal?”
A pergunta é: estou
a preparar o meu filho para a vida ou estou a protegê-lo dela?
E se esta
pergunta te faz querer refletir, ajustar, crescer como mãe, estou aqui para
isso.
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