Que adultos estamos a formar?
Esta semana, uma mãe abordou um tema que, para alguns, pode ser polémico, mas que na verdade toca na base da educação que estamos a dar aos nossos filhos.
Dizia que observava
constantemente, crianças com comportamentos desadequados que não eram corrigidas
pelos pais. E questionava como iriam ser quando se tornassem adultos e tivessem
que enfrentarem as adversidades da vida.
Li a mensagem e
fiquei a pensar: quantos pais refletem sobre o impacto da educação no futuro?
O conforto
do presente vs. o bem do futuro
Educar é, na
sua essência, um ato de amor a longo prazo.
É tomar
decisões hoje (algumas delas difíceis, algumas delas impopulares) a pensar na
pessoa que os nossos filhos vão ser daqui a dez, vinte, trinta anos.
É aqui que
muitos pais, sem se aperceberem, tremem.
É muito mais
fácil, no momento, ceder do que manter o limite. É muito mais cómodo deixar
passar do que ter que aguentar a birra, a reclamação, o olhar de quem acha que
somos os piores pais do mundo.
E assim, pouco
a pouco, vai-se delegando. Para a escola. Para os professores. Para os outros.
Como se educar fosse uma responsabilidade partilhada com todos, menos com quem
mais importa.
Os pais.
O que
acontece quando uma criança nunca é contrariada?
Cresce a
acreditar que o mundo gira à sua volta.
Que as suas
opiniões são as únicas que importam. Que esperar é uma injustiça. Que partilhar
é opcional. Que quando as coisas não correm como quer, a culpa é sempre dos
outros.
E depois essa
criança torna-se adulta.
E leva consigo
tudo o que aprendeu (ou não aprendeu).
A impaciência
que ninguém ajudou a trabalhar torna-se incapacidade de lidar com a frustração.
A arrogância que nunca foi suavizada torna-se dificuldade em aceitar opiniões
contrárias. O egoísmo que nunca foi nomeado torna-se um padrão de
relacionamento que vai magoar, a si e aos outros.
Não estamos a
falar de crianças malcriadas. Estamos a falar de adultos que ninguém preparou
para a vida real.
Mas atenção!
Há uma distinção importante aqui
Falar em
limites, em regras, em exigência, assusta muitos pais. Porque associam estas
palavras a rigidez, a punição, a uma educação fria e controladora.
E essa confusão
tem um nome: a diferença entre autoridade e autoritarismo.
Ser autoridade
não é mandar porque sim. É orientar com propósito. É definir regras que educam,
não que submetem. É conjugar exigência e carinho, porque um sem o outro não
funciona.
Escrevi sobre
isto com mais profundidade neste artigo “O Dever de Ser Autoridade”, vale a
pena ler antes de continuares.
O que queremos
evitar não é ter autoridade. É a permissividade que, ao tentar poupar o filho
ao desconforto, o priva exatamente das ferramentas de que vai precisar para
crescer.
O que uma
criança precisa mesmo de aprender
Não precisa de
uma infância sem conflitos. Precisa de aprender a gerir conflitos.
Não precisa de
ter sempre o que quer. Precisa de aprender a esperar, a partilhar, a receber um
não com dignidade e respeito.
Não precisa de
pais que nunca erram. Precisa de pais que assumem os erros e continuam (faz
parte do nosso crescimento).
Não precisa de
ser poupada a toda a adversidade. Precisa de saber que é capaz de a atravessar.
E tudo isto se
constrói em casa. Nas pequenas decisões do dia a dia. No limite que se mantém
mesmo quando é difícil. No "não" dito com amor. No "pede com
educação" repetido pacientemente pela décima vez.
É nesses
momentos, aparentemente insignificantes, que se forma o carácter.
Uma reflexão
final
Não escrevo
isto para julgar nenhum pai ou mãe.
Escrevo porque
sei, por experiência própria e pelo trabalho que faço com as famílias, que
muitas vezes não falhamos por desleixo. Falhamos porque ninguém nos ensinou.
Porque estamos cansados. Porque não sabemos bem qual é o nosso papel. Porque
confundimos amor com ausência de limites.
Por isso a
pergunta que deixo não é "estás a fazer bem ou mal?"
A pergunta é: que
adulto estás a formar?
E se essa
pergunta te faz querer refletir, crescer, ajustar, estou aqui para isso.



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