O Descanso que o Filho Fleumático precisa nas Férias
Nos artigos anteriores falei sobre o filho colérico (O Descanso que o Filho Colérico precisa nas Férias) e o filho sanguíneo (O Descanso que o Filho Sanguíneo precisa nas Férias) e sobre a forma como cada um recupera energia de maneira diferente.
Hoje chegamos ao filho fleumático.
À primeira vista, pode parecer o mais fácil de todos
quando falamos de descanso. É uma criança que, geralmente, aprecia a
tranquilidade, não precisa de estar constantemente a fazer alguma coisa e tende
a adaptar-se bem a um ritmo mais lento.
Mas será que isso significa que o filho fleumático
precisa apenas de ficar sossegado durante as férias?
Não necessariamente. Se virmos bem, uma coisa é descansar,
outra é ficar parado por falta de iniciativa. E esta diferença é especialmente
importante neste temperamento.
O filho fleumático recupera energia através da calma
O filho fleumático tende a sentir-se bem num ambiente
tranquilo, previsível e sem demasiada pressão.
Não precisa, necessariamente, de uma agenda cheia para se
sentir feliz durante as férias. Pelo contrário. Ter tempo para brincar ao seu
ritmo, estar em casa, ler, desenhar, construir alguma coisa ou simplesmente
estar com a família pode ser exatamente aquilo de que precisa para recuperar
energia. Também costuma apreciar relações próximas, mas sem sentir necessidade
de estar constantemente no centro das atenções.
Para ele, férias significa abrandar.
E isso é importante.
Num mundo em que muitas vezes confundimos férias com
experiências constantes, viagens e atividades, o filho fleumático pode
lembrar-nos de que não fazer nada de extraordinário também pode ser uma forma
saudável de descansar.
Mas existe aqui um cuidado importante.
Descansar não é deixar de crescer
O filho fleumático pode facilmente confundir-se com uma
criança que "não dá trabalho". Não exige tanto. Não procura
constantemente atenção. Não tem problemas em ficar em casa sossegado. E,
precisamente por isso, existe o risco de interpretarmos a sua tranquilidade
como se não precisasse de orientação.
Mas precisa.
O filho fleumático pode ter tendência para esperar que os
outros tomem a iniciativa, evitar situações de conflito ou escolher o caminho
mais confortável. E as férias não devem reforçar essa tendência.
Conhecer o seu temperamento não significa permitir que
passe todo o verão no sofá, escolha sempre a atividade mais fácil ou evite tudo
aquilo que lhe exige esforço. As férias continuam a ser tempo de educação. Continuam
a existir responsabilidades, limites e oportunidades para desenvolver o seu
carácter.
O objetivo não é transformar o filho fleumático numa
criança mais agitada. É ajudá-lo a crescer sem perder aquilo que há de tão
valioso na sua forma de ser.
O que costuma ajudar um filho fleumático a descansar?
Mais do que uma agenda cheia, o filho fleumático
beneficia de um ritmo equilibrado e previsível.
Ter tempo livre é importante. Mas também é importante
ajudá-lo a sair da passividade e a envolver-se nas experiências que acontecem à
sua volta.
Pode ser convidá-lo para preparar uma refeição em
família, ajudar a organizar um passeio, cuidar das plantas, participar num
jogo, construir alguma coisa ou escolher uma atividade para fazerem juntos.
Não é preciso transformar cada momento numa tarefa
educativa. É dar-lhe oportunidades para participar. Também pode ser importante
criar momentos de movimento físico. Uma caminhada, andar de bicicleta, nadar,
jogar à bola ou explorar a natureza podem ajudá-lo a sair do conforto e a
experimentar outras formas de estar. E, sobretudo, vale a pena respeitar o seu
ritmo sem o deixar ficar preso a ele.
O filho fleumático pode precisar de mais tempo para
começar uma atividade, para se adaptar a uma novidade ou para se envolver numa
experiência. Isso não significa que devemos fazer tudo por ele. Podemos dar-lhe
tempo para se preparar e, ao mesmo tempo, incentivá-lo a avançar.
As férias também são uma oportunidade para moldar o seu
carácter
O filho fleumático tem qualidades extraordinárias.
É geralmente tranquilo, paciente, conciliador e capaz de
criar relações estáveis. Pode ser uma presença que traz serenidade à família e
que ajuda a diminuir conflitos.
Mas também precisa de desenvolver competências que podem
não surgir naturalmente. Tomar iniciativa. Expressar aquilo que pensa. Defender
as suas opiniões. Aceitar desafios. Sair da sua zona de conforto. Aprender a
dizer não. Assumir responsabilidades. Não evitar conflitos apenas para manter a
paz.
E as férias oferecem um contexto privilegiado para
trabalhar tudo isto. Sem a pressão dos horários escolares, há mais tempo para
permitir que tente, espere, escolha, participe e assuma pequenas
responsabilidades.
Educar um filho fleumático significa precisamente não
fazer por ele aquilo que ele já consegue fazer. Não decidir sempre por ele. Não
falar sempre por ele. Não aceitar automaticamente o "tanto faz". Quando
lhe perguntamos o que prefere, podemos esperar pela resposta. Quando diz que
não quer participar, podemos procurar compreender porquê, sem assumir
imediatamente que devemos retirar o desafio. Quando precisa de fazer alguma
coisa, podemos dar-lhe espaço para a fazer sozinho. Porque autonomia também se
constrói devagar.
O descanso que precisa e o crescimento de que não pode
fugir
Há uma linha muito importante entre respeitar o
temperamento e acomodarmo-nos a ele. Uma criança fleumática pode precisar de
mais tranquilidade do que os irmãos. Isso não significa que precise de menos
oportunidades para crescer. Pode precisar de mais tempo para entrar numa
experiência nova. Isso não significa que devamos evitar todas as novidades. Pode
gostar mais de observar antes de participar. Isso não significa que não deva
ser incentivada a envolver-se.
É aqui que conhecer o temperamento se torna
verdadeiramente útil. Não para colocar uma etiqueta na criança. Não para
justificar comportamentos. E muito menos para criar uma educação feita à medida
de todas as suas preferências.
Serve para percebermos melhor de onde partimos. E, a
partir daí, escolhermos melhor aquilo que precisamos de estimular.
O filho fleumático não precisa de férias cheias para
descansar. Precisa de tranquilidade, segurança e tempo para recuperar energia. Mas
também precisa de oportunidades para descobrir que é capaz de muito mais do que
aquilo que, à primeira vista, estaria disposto a experimentar.
As férias podem dar-lhe ambas as coisas. Podem ser um
tempo para abrandar. E podem ser um tempo para avançar.
Educar de acordo com o temperamento não é proteger a
criança de tudo aquilo que lhe custa. É conhecer a sua forma de ser para a
ajudar, com respeito e intenção, a desenvolver aquilo de que precisa para
crescer.
Na próxima semana vou falar sobre o filho melancólico.
Se o fleumático procura sobretudo tranquilidade, será que o melancólico descansa da mesma forma? Ou será que o seu mundo interior muda completamente a forma como recupera energia?



Comentários
Enviar um comentário