A Importância de uma Boa Amizade no Desenvolvimento Saudável das Crianças e Adolescentes
Quando pensamos no que influencia o desenvolvimento de
uma criança, tendemos a focar-nos na família, na escola ou nas rotinas do dia a
dia. Mas há um elemento que muitas vezes passa despercebido e que tem um
impacto enorme na forma como a criança se vê a si própria e ao mundo: as
amizades.
Sim, as amizades moldam. Não
apenas a personalidade, mas também a autoestima, a capacidade de tomar
decisões, os limites que aceitamos e os que defendemos. E esse processo começa
muito antes da adolescência.
Uma amizade saudável não é
aquela em que nunca há conflito. É aquela em que o conflito existe e é
resolvido com respeito. É uma relação onde a criança se sente livre para ser
ela própria, onde pode discordar sem medo de perder o amigo, onde pode dizer “não
gostei disso” sem ser punida por isso.
Mais do que diversão partilhada,
uma boa amizade reforça a segurança interna. A criança aprende, através dessa
relação, que é válida tal como é, com os seus gostos, as suas opiniões, as
suas inseguranças. E essa aprendizagem vai muito além do recreio.
É precisamente por isso que
importa tanto perceber quando uma amizade não está a fazer esse papel.
Até aos 12 anos, as
crianças estão a aprender a relacionar-se. Estão a descobrir o que é ser amigo,
o que se aceita e o que se recusa, como se resolve um conflito, como se pede
desculpa, como se diz não.
Nesta fase, há amizades que
ensinam coisas extraordinárias: a partilha genuína, a empatia, a lealdade. Mas
há também amizades que ensinam padrões problemáticos, muitas vezes sem que
ninguém se aperceba.
O amigo que decide sempre tudo, está a ensinar ao teu filho que a opinião dele não conta. O amigo que a faz rir
à custa de outra criança está a normalizar a crueldade. O amigo que a pressiona
a fazer algo que ela não quer está a ensinar a ceder quando não devia.
Estes padrões são difíceis de
ver porque acontecem em situações que parecem normais. E é por isso que
precisam de atenção.
Se numa primeira fase as
amizades formam padrões, na adolescência esses padrões ganham um peso real. O
adolescente está à procura de identidade e os amigos são o espelho mais
próximo nessa busca.
A neurociência confirma o que os
pais já intuem: o cérebro adolescente é altamente sensível ao julgamento
social. Pertencer ao grupo, ser aceite, não ficar de fora, todas estas necessidades
são intensas e reais, não drama ou fraqueza.
O problema é que, quando os
amigos errados preenchem essa necessidade de pertença, o preço costuma ser
alto. O adolescente aprende a silenciar o que sente para não criar conflito, a
agir contra os próprios valores para encaixar, a ignorar o que o incomoda para
não perder o grupo. E esses padrões não ficam na adolescência, acompanham-no para o resto da vida.
As relações de amizade são o
primeiro laboratório emocional de uma criança. É ali que ela pratica, pela
primeira vez, como se posiciona perante os outros, como comunica o que quer e o
que não quer, como reage quando se sente mal tratada.
Uma criança que aprende a
tolerar humilhações "a brincar" vai, muito provavelmente, ter
dificuldade em reconhecê-las quando adulta. Um adolescente que aprende a calar
o que sente para não perder amizades tende a repetir esse padrão nas relações amorosas,
no trabalho, em todo o lado.
Por isso, falar sobre amizades
com os nossos filhos não é exagero nem proteção em excesso. É uma das conversas
mais importantes que podemos ter.
Não se trata de escolher os
amigos pelo teu filho, nem de o proteger de toda a fricção social, essa
fricção faz parte do crescimento. Trata-se de:
- Estar presente nas conversas sobre os amigos, sem julgamento.
- Nomear o que observas: "Reparei que ficas quieto depois de estares com o X. O que se passa?"
- Ensinar como é uma relação onde há respeito e como é uma onde isso não existe.
- Validar o que ele sente, mesmo quando não concordas com as escolhas.
Uma criança que sabe que pode trazer as suas dúvidas sobre os amigos para casa tem uma vantagem enorme. Não precisa de resolver tudo sozinha e aprende que pedir ajuda também é uma forma de força.
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