A carta que ele nunca escreveria
Faltam ainda duas semanas para começarem as aulas, mas a Rita já perguntou hoje, pela quinta vez esta semana, se o filho está nervoso.
Ele diz que não. Diz sempre que não.
À noite, depois de o deitar, a Rita imagina o que ele talvez lhe dissesse, se soubesse como.
Querida mãe,
Ainda faltam alguns dias antes da escola começar, eu sei. Mas já ando a pensar nisso todas as noites.
Não sei se vou encontrar a minha sala logo no primeiro dia. Não sei se a professora nova vai ser como a do ano passado. Não sei se o Tomás fica na minha turma ou se ficamos separados.
Sabes que me perguntas quase todos os dias se estou nervoso? Cada vez que perguntas, fico com mais a certeza de que devia estar. Se calhar até nem estava tanto, até tu perguntares.
Não sei se é medo. Só sei que penso nisto muitas vezes por dia, e não sei bem o que fazer com esse pensamento.
Só queria que soubesses. Só isso.
Beijinhos
João
A Rita lê a carta que escreveu, em nome do filho que ainda não sabe escrever cartas, e percebe que amanhã não vai perguntar, pela sexta vez esta semana, se ele está nervoso.
Talvez pergunte antes se ele gostaria de ir com ela, ver a sala nova, o cabide e o caminho até lá, só para saber como é, antes de ser a sério.



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