O Descanso que o Filho Melancólico precisa nas Férias


Nos artigos anteriores falei sobre o filho colérico, o filho sanguíneo e o filho fleumático e sobre a forma como cada um recupera energia de maneira diferente.

Hoje chegamos ao último dos quatro temperamentos: o filho melancólico.

Se há um filho que pode parecer perfeitamente confortável com umas férias mais tranquilas, é este.

Gosta de ambientes calmos. Pode passar bastante tempo a ler, desenhar, construir, observar ou simplesmente estar no seu mundo. Não precisa necessariamente de uma agenda cheia para se sentir bem.

Mas existe uma diferença importante entre dar-lhe o descanso de que precisa e criar umas férias demasiado fechadas àquilo que lhe é confortável. O filho melancólico precisa de tranquilidade. Mas também precisa de espaço para experimentar, relacionar-se, lidar com o inesperado e aprender que nem tudo tem de acontecer como imaginou.

 

O filho melancólico recupera energia através da tranquilidade

O filho melancólico tende a ter um mundo interior muito rico.

Observa. Pensa. Analisa. Repara em detalhes que muitas vezes passam despercebidos aos outros.

Por isso, férias demasiado preenchidas, com muitos estímulos, mudanças constantes e pouca oportunidade para estar consigo próprio, podem ser cansativas.

Para este filho, descansar significa ter tempo para ler, desenhar, escrever, construir, ouvir música, estar na natureza ou simplesmente brincar sem que alguém esteja constantemente a dirigir aquilo que deve fazer.

Precisa de tempo para pensar. Precisa de tempo para processar aquilo que viveu. Precisa de momentos em que não tenha de estar sempre a responder, participar ou acompanhar o ritmo dos outros. E isso não significa que seja antissocial ou que não goste de estar com as pessoas. Significa apenas que, muitas vezes, recupera energia através de momentos de maior tranquilidade e profundidade.

 

Mas descansar não é viver dentro da zona de conforto

Aqui está um dos maiores desafios quando educamos um filho melancólico. É fácil perceber a sua necessidade de calma e começar, sem intenção, a protegê-lo demasiado de tudo aquilo que lhe pode causar desconforto. Se não quer ir porque não conhece ninguém, deixamo-lo ficar. Se está preocupado com uma atividade nova, evitamo-la. Se algo não correu como esperava, tentamos rapidamente corrigir. Se tem medo de falhar, baixamos a exigência.

Tudo isto pode parecer cuidado. Mas, se for constante, pode transmitir-lhe uma mensagem perigosa: “Se alguma coisa me deixa desconfortável, devo evitá-la.”

E não é isso que queremos ensinar. As férias podem ser tranquilas sem serem excessivamente protegidas. Podem dar espaço ao filho melancólico para recuperar energia e, ao mesmo tempo, ajudá-lo a experimentar aquilo que lhe custa.

 

O que costuma ajudar um filho melancólico a descansar?

Mais do que uma agenda cheia, o filho melancólico beneficia de um ritmo equilibrado, com tempo para estar consigo próprio e atividades que tenham significado para ele. Pode ser uma tarde de leitura. Desenhar ou pintar. Construir alguma coisa. Fazer um projeto criativo. Explorar a natureza. Fotografar. Escrever. Cozinhar. Ou simplesmente ter tempo livre para decidir o que fazer sem estar constantemente a ser entretido.

Também é importante respeitar os momentos de transição. Se esteve vários dias fora, rodeado de pessoas e com muitas experiências novas, talvez precise de algum tempo mais tranquilo quando regressa. Se passou uma manhã cheia de estímulos, pode beneficiar de uma tarde mais calma.

Conhecer esta necessidade permite-nos evitar uma sucessão de atividades apenas porque “é verão e temos de aproveitar”.

Afinal, aproveitar as férias não significa aproveitar todas as oportunidades. Significa também saber quando é altura de parar.

 

Mas também precisa de ser desafiado

Ao mesmo tempo, não devemos usar o temperamento como desculpa para evitar tudo aquilo que pode ajudar o nosso filho a crescer.

O filho melancólico pode ter tendência para pensar muito antes de agir. Pode preocupar-se com aquilo que pode correr mal. Pode ser bastante autocrítico. Pode querer fazer as coisas bem e, por isso, ter dificuldade em arriscar quando não sabe se será capaz.

É aqui que as férias podem ser uma oportunidade extraordinária. Podemos incentivá-lo a experimentar algo novo. A participar numa atividade mesmo que não conheça ninguém. A aceitar que nem tudo corre como planeado. A fazer alguma coisa sem procurar a perfeição. A lidar com uma pequena frustração sem tentarmos imediatamente resolver. A relacionar-se com outras crianças, mesmo que inicialmente prefira ficar mais reservado.

O objetivo não é obrigá-lo a ser aquilo que não é. É ajudá-lo a perceber que pode sair da sua zona de conforto sem deixar de ser quem é.

 

As férias também são uma oportunidade para moldar o seu carácter

O filho melancólico tem qualidades extraordinárias. É profundo. Sensível. Observador. Criativo. Reflexivo. Pode ser extremamente cuidadoso e comprometido com aquilo que considera importante.

Mas, tal como todos os temperamentos, também tem competências que precisa de desenvolver. Aprender a lidar com a imperfeição. Ser mais flexível. Aceitar mudanças de planos. Arriscar sem ter garantias de sucesso. Não ficar preso aos erros. Expressar aquilo que sente. Relacionar-se com pessoas diferentes. Aprender que nem tudo precisa de ser pensado até ao último detalhe antes de ser vivido.

As férias oferecem-nos tempo para trabalhar tudo isto de uma forma muito mais natural. Sem transformar cada experiência numa lição. Às vezes, basta deixá-lo participar. Outras vezes, será preciso encorajá-lo. E haverá momentos em que o mais importante será simplesmente estar ao seu lado enquanto enfrenta algo que lhe custa.

 

Nem sempre precisamos de tornar tudo mais fácil

Esta talvez seja uma das ideias mais importantes quando falamos do filho melancólico. porque, quando conhecemos a sua sensibilidade, podemos sentir uma vontade enorme de o proteger. Queremos evitar que fique triste. Que se sinta desconfortável. Que falhe. Que se desiluda.

Mas educar não é retirar todos os obstáculos do caminho. É ajudá-lo a desenvolver recursos para os atravessar.

O filho melancólico precisa de saber que pode descansar quando precisa. Mas também precisa de descobrir que consegue lidar com aquilo que o desafia. Pode precisar de mais tempo para se adaptar, por isso podemos respeitar esse tempo sem desistir do desafio. Pode precisar de compreender o que vai acontecer, por isso podemos explicar sem lhe garantir que tudo correrá exatamente como espera. Pode sentir medo de falhar, por isso podemos acolher esse medo sem permitir que seja ele a decidir sempre.

É neste equilíbrio que as férias podem tornar-se verdadeiramente educativas.

O verdadeiro objetivo

Conhecer o temperamento do teu filho não serve para criar uma infância feita à medida das suas preferências. Serve para compreender melhor aquilo de que ele precisa.

No caso do filho melancólico, isso pode significar criar espaço para a tranquilidade, para a criatividade, para a reflexão e para momentos de menor estímulo. Mas também significa ajudá-lo a desenvolver flexibilidade, coragem, confiança e capacidade para lidar com aquilo que não controla.

As férias podem ser um tempo para abrandar. Mas também podem ser um tempo para experimentar. Podem ser um espaço para recuperar energia e, simultaneamente, para crescer. Respeitar a sensibilidade do filho melancólico não significa protegê-lo de tudo aquilo que lhe custa. Significa dar-lhe segurança suficiente para que possa, aos poucos, enfrentar aquilo que lhe custa.

E talvez seja esta a melhor forma de olhar para o descanso de cada temperamento.

Não queremos férias iguais para todos os filhos.

Queremos criar condições para que cada um possa recuperar energia da forma de que precisa e, ao mesmo tempo, continuar a desenvolver aquilo que o ajudará a crescer.

Educar de acordo com o temperamento não é deixar cada filho fazer aquilo que quer. É conhecer quem ele é para saber melhor como o ajudar a tornar-se quem pode ser.

Com este artigo terminamos esta série sobre os quatro temperamentos e as férias.

Se ainda não leste os artigos anteriores, podes encontrar aqui também as reflexões sobre o filho colérico, o filho sanguíneo e o filho fleumático!

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